A Cavalaria

(Fonte: http://www.terravista.pt/Enseada/2674/Medieval_cavalaria.htm)

      A cavalaria é uma instituição que se implantou no sistema feudal por volta do ano 1000. No sentido estrito, cavaleiro é todo homem de armas que se submeteu aos ritos de uma cerimônia de iniciação específica: a sagração do cavaleiro. Contudo não basta Ter sido ordenado: deve-se também obedecer a certas regras e sobretudo seguir um modo de vida particular. Os cavaleiros não formam uma classe jurídica, mas uma categoria social que reúne especialistas em combate de cavalaria – o único eficaz até o final do século XIII -, e que dispõe dos meios de levar esta existência à parte, que é a vida do cavaleiro.



     Teoricamente, todo homem batizado tem acesso a cavalaria: cada cavaleiro pode tornar cavaleiro aquele que ele julgar digno de sê-lo, não importa a origem ou condição social. As canções de gesta oferecem muitos exemplos de plebeus que se sagraram cavaleiros em recompensa por serviços prestados ao herói. Às vezes, são simples servos. Na Chansom d’ami et d’amile, por exemplo, dois deles recebem o grau de cavalaria das mãos de seu senhor, a quem, apesar da lepra, permaneceu fielmente devotado.

“Nessa ocasião o conde Ami [...] não esqueceu seus dois bons servos: no dia mesmo em que ficou curado, sagrou ambos cavaleiros”  (A . Giry, Manuel de Diplomatique, Paris, 1894.)

 Mas a realidade é outra. A partir da metade do século XII, os cavaleiros tendem a ser recrutados quase exclusivamente entre os filhos de cavaleiros, formando uma casta hereditária. Se não chegam a desaparecer de vez, a sagração de plebeus torna-se um fato excepcional por dois motivos: o primeiro reside no processo de captação que favorece inevitavelmente o controle de uma classe, a aristocracia de terra, sobre uma instituição por nenhuma norma de direito; o segundo – talvez mais importante – deve-se a imperativos sócio – econômicos: o cavalo, o equipamento militar, a cerimônia e as festas de sagração exigem altas somas, a própria existência do cavaleiro, feita de prazeres e ociosidade, pressupõe uma certa riqueza, que naquela época provinha apenas da terra. Ser cavaleiro, com efeito, significa glória e honra; apenas da terra, portanto é preciso viver, seja da generosidade de um rico e poderoso senhor, seja dos rendimentos de um patrimônio. Assim são numerosos aqueles que preferem a concessão de um feudo, por menor que seja, às generosidades domésticas de um senhor.
     Por volta de 1200, os cavaleiros são essencialmente os senhores e os filhos dos senhores. Na França, o fenômeno se acentua ao longo do século XIII, o ponto de a condição de cavaleiro deixar aos poucos de ser considerada como individual para se tornar uma instituição hereditária reservada aos estratos superiores da aristocracia. Ocorre então a fusão entre cavalaria e nobreza.

A  Vida de Cavaleiro

     A cavalaria é sobretudo uma maneira de viver. Requer uma preparação especial, uma sagração solene e atividades que não podem se confundir com as do homem comum. As literaturas épicas e corteses nos dão imagens detalhadas dessa vida, mas provavelmente um tanto distorcidas em função de seu caráter ideologicamente passadista. É preciso cotejá-las com outras fontes, narrativas, textos diplomáticos e os achados arqueológicos.
     A vida do cavaleiro começa por uma longa e difícil aprendizagem inicialmente no castelo paterno, e depois a partir dos dez ou doze anos, junto a um rico padrinho ou protetor. A primeira formação, familiar e individual, tem por objetivo ensinar os rudimentos da equitação e do manejo de armas. A Segunda, mais longa e mais técnica, é uma verdadeira iniciação profissional e esotérica, sendo praticada coletivamente. Em todos os escalões da pirâmide feudal, com efeito, cada senhor é cercado de uma espécie de “escola de cavalaria”, onde os filhos de seus vassalos, de seus protegidos e eventualmente parentes menos afortunados vêm aprender o ofício militar e as virtudes do cavaleiro.
     Até uma idade que varia entre dezesseis e vinte e três anos, esses adolescentes exercem junto a seu protetor a função de criado doméstico e auxiliar de armas. Servindo à mesa, acompanhando-o à caça, participando de seus divertimentos aprendem as virtudes do homem do mundo. Ocupando-se de seus cavalos, limpando as armas e, mais tarde, seguindo-os nos torneios e nos campos de batalha, adquirem os conhecimentos do homem de guerra. A partir do dia em que passam a exercer esta última função até o momento da ordenação como cavaleiro, possuem o título de escudeiro. Aqueles que, por falta de sorte, mérito ou ocasião não conseguem alcançar ordenação, guardarão este título por toda a vida. Pois é apenas após a ordenação e a entrega do equipamento que se pode ostentar o título de cavaleiro.
     O desdobramento ritual da cerimônia de ordenação foi fixado tardiamente. No período a que nos referimos, as formas mostram-se ainda bastante diversas, tanto na realidade quanto nas obras literárias. Observa-se particularmente uma grande diferença entre as ordenações que ocorreram em tempos de guerra e as realizadas em época de paz. As primeiras sucedem num campo de batalha, antes do combate ou após a vitória; são as mais gloriosas, embora os gestos e as fórmulas estejam reduzidos à sua expressão mais simples, em geral a entrega da espada e a palmada no ombro. As segundas coincidem com a celebração de uma grande festa religiosa (Páscoa, Pentecostes, Ascensão) ou civil (nascimento ou casamento de um príncipe, reconciliação de dois soberanos). São espetáculos quase litúrgicos, tendo por cenário o pátio de um castelo, o pórtico de uma igreja, uma praça pública ou a relva de um prado. Exigem dos futuros cavaleiros uma preparação sacramental (confissão, comunhão) e uma noite de meditação numa igreja ou capela: a vigília de armas. Seguem-se diversos dias de banquetes, torneios e diversões.
     A cerimônia propriamente desenrola-se segundo uma ordem sacralizada. Ela se inicia pela benção das armas, que o padrinho entrega a seguir ao afilhado: primeiro a espada e as esporas, depois a cota de malha e o elmo, por fim a lança e o escudo. O escudeiro veste a indumentária, recita algumas preces e pronuncia um juramento, pelo qual se compromete a respeitar os costumes e as obrigações da cavalaria. A cerimônia termina com a palmada no ombro, gesto simbólico cuja origem e significado permanecem controvertidos e de variadas formas: mais freqüentemente, o oficiante, de pé, desfere sobre o ombro ou a nuca do futuro cavaleiro, que se encontra ajoelhado diante dele, um forte golpe com a palma da mão. Em certos condados da Inglaterra e algumas regiões da França ocidental, esse gesto se reduz a um simples abraço ou um vigoroso aperto de mão. No século XIV, esse ritual não se fará mais com a mão, mas com a lâmina da espada, e será acompanhada da fórmula: “Em nome de Deus, de São Miguel e de São Jorge, eu te declaro cavaleiro. Apesar da diversidade de explicações existentes a respeito desse ato, os estudiosos tendem a ver nessas práticas o resquício de um costume germânico, segundo o qual um velho transmitia a um jovem as virtudes e as qualidades de guerreiro.
     A sagração, etapa capital na carreira de um cavaleiro, não altera muito sua vida cotidiana, que continua a se resumir em cavalgadas, batalhas, caçadas e torneios. Os senhores de mais posses ocupam nessas lides os primeiros lugares, enquanto aos vassalos pobremente enfeudados resta se contentar com as migalhas da glória, do prazer e da riqueza. O exemplo de Guilherme, o Marechal, caçula pouco afortunado a quem coube a honra de ordenar Henrique, o Jovem, filho primogênito de Henrique II Plantageneta, é provavelmente um caso excepcional:

“Naquele dia, Deus concedeu ao Marechal uma imensa honra: em presença de condes e barões, em presença de numerosos senhores de prestigiosas linhagens, ele, que não tinha senão a menor porção do feudo, que não possuía nada mais que seu grau na cavalaria, entregou a espada ao filho do rei da Inglaterra. Muitos tiveram inveja, mas ninguém ousou manifestá-la abertamente”.

     Os cavaleiros são iguais de direito, mas não o são de fato. Existem espécies de “proletariado cavalariano”, cujos rendimentos, montarias e mesmo as armas dependem dos poderosos (reis, condes, barões), aos quais devem viver atrelados. Esses cavaleiros necessitados, ricos de gloriosas esperanças mas pobres de feudos, são geralmente jovens que aguardam a sucessão paterna ou que a falta de fortuna condena a servir um protetor. Sob o comando de um filho de um príncipe ou de um conde, formam bandos turbulentos, que buscam a aventura e prestam serviços, de torneio em torneio, de aldeia em aldeia. São os primeiros a se lançar nas cruzadas ou numa expedição distante, atraídos pela incerteza, e pelo desconhecido. Como Guilherme, o Marechal, procuram seduzir uma rica herdeira, que lhes trará a fortuna que nem os negócios nem o nascimento puderam lhes proporcionar. Conseqüência desse fato é a idade tardia com que se casam, ainda que na busca do matrimônio e de terras poucos tenham tido o êxito alcançado pelo futuro regente da Inglaterra.
     É provavelmente ao público formado por esses jovens cavaleiros, ávidos de proezas amorosas e guerreiras, que se dirigem os romances da cavalaria e a literatura cortês. Ali eles encontram a imagem de um sociedade que não existe e que não desejariam impor. Uma sociedade em que as qualidades, as práticas e as aspirações da classe dos cavaleiros seriam os únicos ideais possíveis.

O ideal e as virtudes do cavaleiro

     A cavalaria não impõe apenas uma maneira de viver, mas também uma ética. Embora haja provas históricas inegáveis do compromisso moral assumido pelo jovem guerreiro no dia de sua ordenação, forçoso é reconhecer que a existência de um verdadeiro código de cavalaria é atestada apenas pela literatura. E sabemos que a distância pode haver, no século XII, entre os modelos literários e a realidade cotidiana. De resto, os preceitos desse código diferem de uma obra à outra, e seu espírito se modifica sensivelmente ao longo do século. Os ideais da Canção de Rolando não são mais os mesmos de Chrétrien de Troyes. Vejamos Gornemant de Goort ensinar ao jovem Perseval os deveres do cavaleiro:

“Querido irmão, se precisares lutar contra um cavaleiro, lembra-te do que vou dizer: se és tu quem ergue a cabeça [...] e se ele se vê forçado a pedir piedade, não o mates estupidamente, mas concede-lhe a misericórdia. Por outro lado, não sejas nem muito tagarela nem muito curioso [...] Aquele que fala demais comete um pecado; previne-te, pois. E se encontrares um dama ou uma donzela em apuros, eu te imploro: faze o que estiver ao teu alcance para lhe prestar socorro. Termino com um conselho que não convém sobretudo desdenhar: entra seguidamente num mosteiro, e reza ao Criador de todas as coisas, para que Ele tenha piedade da tua alma e que nesta vida terrena te proteja enquanto cristão”. (Chrétrien de Troyes, Le cont du Graal)

     De uma maneira geral, o código de cavalaria pode ser resumido em três princípios: fidelidade à palavra dada e lealdade perante todos; generosidade, proteção e assistência aos que delas precisam; obediência à Igreja, defesa de seus ministros e de seus bens.
     Ao final do século XII, o perfeito cavaleiro não é ainda Perseval, nem Galahad seguramente, tais como irão aparecer, por volta de 1200, na Demanda do Santo Graal. Também não é Lancelot, cujos amores com a rainha Guinevere têm algo de incompatível com as virtudes do cavaleiro. O “sol de toda a cavalaria” é Gawain, o sobrinho do rei Artur, que dentre os companheiros da Távola Redonda que possui em mais alto grau de qualidades que se espera de um cavaleiro: a franqueza, a bondade e a nobreza de coração; a piedade e a temperança; a coragem e a força física; o desdém a fadiga, ao sofrimento e à morte; a consciência de seu valor; o orgulho de pertencer à uma linhagem; de ser leal a um senhor, de respeitar a fidelidade jurada; enfim, e sobretudo, essas virtudes que em francês arcaico são designadas com os termos “largesse” (generosidade) e “courtoisie” (cortesia), mas não encontram uma correspondência exata e satisfatória no francês moderno.
     Largesse é ao mesmo tempo a liberalidade, a generosidade e a prodigalidade. Ela supõe a riqueza. Seu oposto é a avareza e a busca do lucro, que qualificam os mercadores e burgueses das comunas, constantemente ridicularizados por Chrétien de Troyes e seus imitadores. Numa sociedade em que a maior parte dos cavaleiros vive mesquinhamente do que lhes dão ou concedem seus protetores, é normal que a literatura exalte as oferendas, as despesas, o desperdício e a manifestação do luxo.
     Courtoisie é ainda mais difícil de definir. Compreende todas as qualidades que acabamos de enumerar, e mais: a beleza física, a elegância e o desejo de agradar; a doçura, o frescor da alma, a delicadeza de coração e de maneiras; o humor, a inteligência, uma polidez requintada e, para dizer claramente, um certo esnobismo. Pressupõe também a juventude, a liberdade de todo o apego para com a vida, a disponibilidade para a guerra e os prazeres, a aventura e a ociosidade. Seu oposto é a “vilania”, defeito próprio dos vilões, dos rústicos, das pessoas mal-nascidas e sobretudo mal-educadas. Para ser cortês, a nobreza de berço não basta; os dons naturais devem ser refinados por uma educação especial e alimentada por práticas cotidianas no palácio de um grande senhor. O modelo é a corte de Artur. É lá que encontramos as damas mais belas, os cavaleiros mais valentes, as maneiras mais delicadas.  

A Cavalaria Espiritual  

         A Cavalaria Espiritual difere das cavalarias comuns em muitos aspectos. O Cavaleiro Espiritualizado busca, além de ser um grande guerreiro conhecedor das táticas e da arte da guerra, das regras e virtudes da cavalaria, elevar seus conhecimentos através do estudo e da pesquisa. O pretendente à Cavalaria deve estar sempre buscando o conhecimento daquilo que o cerca e que dele faz parte. Deve se interessar pelos assuntos profanos que interferem diretamente na sociedade em que vive, como política e economia. Deve buscar o conhecimento das ciências “científicas” e também das ciências “ocultas” e a apreciação da arte como um todo. Mas deve principalmente talhar o seu ser nos mais profundos e nobres valores humanos e espirituais pois são estes valores que guiarão o cavaleiro em sua jornada que tem como fator fundamental livrar o mundo das trevas da ignorância buscando sempre ser uma fonte de luz, e também procurando sempre criar novas fontes de luz.